quarta-feira, junho 20, 2007

Da vida bailarina II

“Verdades feitas para nossos pés, verdades que se possam dançar.”

“Meu calcanhar se empinava, os dedos do pé escutavam atentos para compreender-te: pois o ouvido, o bailarino – tem nos dedos dos pés”


Nietzsche

Da vida bailarina



A dança como meditação ativa.

sexta-feira, junho 15, 2007

Esquecimento (Florbela Espanca)


Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era eu meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos...!

quinta-feira, junho 14, 2007

De minha dança

Dançar
Tocar os instrumentos com os movimentos do corpo
Tocar sua alma
Tocar a alma feminina

Uma arte milenar
Que veio primeiro
representar a fertilidade
Dos movimentos do parto

Exalta-se o ventre
O sagrado ventre
De onde sai teus filhos

É o sagrado
E o profano
Por que não?
Em uma só concepção.

quarta-feira, junho 13, 2007

É verdade que vão os bons
Como os frutos - de repente.
Mas deixam, sempre, seus dons:
O sumo, o sabor e a semente.



(Enviada por um amigo, poesia dele mesmo: Jefferson Tadeu)

Carta aos meus inimigos

Remetente: Ellen Barbosa Carneiro Paes
Ao endereço: Avenida Recalque da Silva, Condomínio da Inveja Dolorosa, 666.
A/C: Queridos e fiéis desafetos


A tentar, a tentar estás.
A falar mal permaneces.
Não cansas?
Estás magoado*
Mas... Ainda?
Com o que?
Eu?
Eu existo...
Sei que é difícil esqueceres,
mas me difamando,
talvez consigas convencer algumas cabeças fracas
da mentira que inventou
que só um tolo não percebe:
são para convencer-te a ti mesmo
de que foi melhor mesmo eu ter me afastado.
Afinal, Oh, como sou má!
“I’ll be your mirror?”

Eu?
Só me lembro de ti quando alguém toca no assunto.
O que de fato me ocorre neste momento.
Penso...
Se continuares me supervalorizando assim
Vou começar a acreditar
que sou realmente tanto quanto dizem
e deixar de falsa modéstia.
Começarei,
a partir de agora,
a cultivar o ibope que continuas a me dar
mesmo eu a te ignorar.

Não sei bem o que me move a escrever essas poucas palavras infames.
Em vão,
eu bem sei.
Preocupo-me ainda
até com o que e quem não deveria.

Considere este momento como...
Um vômito.
Aquele que regurgita
a bebida vagabunda que bebi enquanto tive a ti como suposto amigo.
Escrever, como já é sabido,
é também o meu descarrego cerebral.
Talvez eu divulgue isso.
Talvez não.
Mas cá estou.
A gastar meu tempo com essa inutilidade.
...

Achei que já estivesses feliz.
Animei-me com essa possibilidade.
Assim, poderia deixar de espalhar intrigas sem razão de ser.
Oh, que infortúnio é sua vida!
Não é mesmo?
Não tiveras a mesma sorte de uma família feliz.
Faltou-te apoio dos que deveriam ter te amado.
Não foi?
Quantas vezes reclamastes disso!

Parece que tens uma placa a brilhar
“Sou um perdedor!”
Agrada-te vestir esta pele?

Essas mentiras...
Elas ao menos te convencem?
Se te fazem sentir melhor,
entendo.
Ensino-te minha estratégia:
sempre preferi o silêncio.
Certos despautérios merecem ser respondidos
com um longo e barulhento silêncio.
Eles incomodam mais que as pedras que gasta teu tempo a atirar em mim.

Eu?
Não preciso reagir da mesma forma.
Está óbvio que o que tens
É dor de cotovelo
Crônica.

E ainda assim,
ainda assim
com tanto esforço!
Tens raiva não é?
Alguém ainda não se convenceu!
Oh! Que desgraça!

Tenta.
Tenta...
Tenta!

Pior!
Essa pessoa me ama?
Ela me defende?
E agora, José?

Tenta.
Tenta...
Tenta!

Mas hoje,
rompo este longo silêncio
e depois dele,
me calo mais uma vez.
Deixarei-te livre
pra que escolhas mais uma vez
Continuar ou não com o que começaste.
Sua insistência em maldizer-me.

O triste é perceber
que continuas afundar no mesmo buraco
que começaste cavando lá atrás.
Lembra?
Lembra sim.
Lembra sempre antes de dormir.
Aliás,
deves ter insônia ainda...
Se bem conheço.

Mas ser vítima ainda é mais confortável.
Então, assim eu deixo.
Demora mesmo p’ra se aprender
que tudo é uma questão de escolha.
E eu também fiz as minhas.
Algumas boas,
outras más.
Paciência.

Quero-te muito bem, saiba.
Torço que um dia tenhas a mesma,
ou ainda,
mais que a minha sorte!
Para que possas parar de reclamar as perdas.

Que tenhas a mesma sorte
Dos amores que cativo,
das boas energias que aproximo.
Das verdades da minha vida.
Que só eu sei.
Das mentiras que cedo ou tarde
eu desmascaro dentro de mim.
Mentiras sinceras que todo ser humano cultiva
Mas que, ressalto: só a mim interessam.
Desmascaro-as p’ra que eu continue caminhando em paz.

Também te desejo
Um pouco das vitórias que conquisto.
Sinto-me mal às vezes por ter tanto.
Mereço?
Devo ter merecido em algum momento.

Mas você também.
Não se preocupe tanto comigo.
Das perdas e dos erros
só desejo a regeneração e o fortalecimento.

Eu não desejo o mesmo que me desejas,
querido inimigo que vestiu a carapuça.
Eu desejo que consigas um dia ser realmente feliz.
E mais que isso.
Que consigas finalmente entender
que um dia se perde,
no outro se ganha.
Portanto,
não se incomode tanto comigo.
Simples assim.

Não é mais uma declaração de amor

Ela não gostava dele.
E vice-versa.

Ele era o machista do interior.
Ela, a chata da capital.

Eis que então, um belo dia.
Ambos se olharam de uma maneira diferente.
Ela dançava.
Ele olhava.

E, de uma noite despretenciosa de quarta-feira,
véspera de feriado
E de uma amiga em comum,
alcoviteira que só ela,
Uma dança a dois se fez.
Bastou.

Mais tarde, como era de se esperar
O cavalheiro passa a procurar a dama.
Tradicionalmente.
Sutilmente.
E ela, coitada,
pobre moderninha,
Pensou que assustaria o pretendente
Com sua...
digamos...
“intensidade”.

E sob uma música muito familiar,
de Milton Nascimento,
uma letra, talvez não por acaso,
chamava-se “Nascente”
Deu-se o encontro de duas almas.

Uma, da paulicéia desvairada
Outra, de logo ali, do Seridó.
E de forma, absurda,
Como há muito não se via por aí,
a paixão invadiu.
E como se é de costume desse sentimento,
arrebatadoramente.

Ele, dos números.
Ela, das letras.
Ele prefere o campo,
Ela, sempre foi mais de praia.
Ela curte filmes-cabeça
Ele, não tem paciência,
prefere os de guerra.
Ela não entende como alguém pode se emocionar ao ver uma antena.
Ele acha um absurdo ela comer palmito e não gostar de champignon.

Um dia, ele viajou de avião pela primeira vez
Com ela.
E ela se interessou por saber como diabos o som ou a energia chegam até a pessoa.
Ele explicou pacientemente.
E embora ela não tenha entendido uma só palavra,
ficou completamente encantada com a astúcia do rapaz
Em explicar os detalhes da fantástica engenharia
A uma leiga-jornalista.

Depois, ela se pegou assistindo um filme de guerra
E ele, um de Kubrick.
Mais tarde, ela se orgulhou de um artigo
Muito bem escrito por ele.
E ele descobriu que,
n’um passado remoto
ela havia sido excelente aluna de matemática, geometria e afins.

Foi então que ambos descobriram:
tinham mais em comum do que o contrário
E as diferenças?
Um aprendizado constante.
Um tempero.


O beijo?
O melhor de toda uma vida.
Para ambos.
A pele?
A mais cheirosa. A mais macia.
Um verdadeiro encaixe.

E da paixão, fez-se o amor.
Aquele em que se acredita só existir nos livros.
Nos folhetins.
Com uma dose forte de realidade,
é verdade.
Mas aquele...
Você sabe
No fundo, no fundo
Todos querem e/ou esperam...

...

Com sabor de fruta mordida.
Clichê.
Brega.
Cafoníssimo.
Mas...
absurdamente...
delicioso.
HIPÓTESE (Drummond)



E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez,
as coisas deste mundo.
Liberdade (Drummond)


O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
Agora
Ontem
Amanhã.

Ora.
Tem.
Manhã.

terça-feira, junho 12, 2007

Sofro do Cérebro

Mais do mesmo?
Ou mesmo demais?
De mais!
De menos.
Mais um espaço
descongestionante cerebral
Um espaço virtual
ou não virtual
Um não-lugar
Onde posso me sentir à vontade
E vomitar tudo o que meu cérebro mandar.
Afinal,
sofrer do cérebro
Já dizia Fernanda Young
é normal.