quarta-feira, junho 13, 2007

Não é mais uma declaração de amor

Ela não gostava dele.
E vice-versa.

Ele era o machista do interior.
Ela, a chata da capital.

Eis que então, um belo dia.
Ambos se olharam de uma maneira diferente.
Ela dançava.
Ele olhava.

E, de uma noite despretenciosa de quarta-feira,
véspera de feriado
E de uma amiga em comum,
alcoviteira que só ela,
Uma dança a dois se fez.
Bastou.

Mais tarde, como era de se esperar
O cavalheiro passa a procurar a dama.
Tradicionalmente.
Sutilmente.
E ela, coitada,
pobre moderninha,
Pensou que assustaria o pretendente
Com sua...
digamos...
“intensidade”.

E sob uma música muito familiar,
de Milton Nascimento,
uma letra, talvez não por acaso,
chamava-se “Nascente”
Deu-se o encontro de duas almas.

Uma, da paulicéia desvairada
Outra, de logo ali, do Seridó.
E de forma, absurda,
Como há muito não se via por aí,
a paixão invadiu.
E como se é de costume desse sentimento,
arrebatadoramente.

Ele, dos números.
Ela, das letras.
Ele prefere o campo,
Ela, sempre foi mais de praia.
Ela curte filmes-cabeça
Ele, não tem paciência,
prefere os de guerra.
Ela não entende como alguém pode se emocionar ao ver uma antena.
Ele acha um absurdo ela comer palmito e não gostar de champignon.

Um dia, ele viajou de avião pela primeira vez
Com ela.
E ela se interessou por saber como diabos o som ou a energia chegam até a pessoa.
Ele explicou pacientemente.
E embora ela não tenha entendido uma só palavra,
ficou completamente encantada com a astúcia do rapaz
Em explicar os detalhes da fantástica engenharia
A uma leiga-jornalista.

Depois, ela se pegou assistindo um filme de guerra
E ele, um de Kubrick.
Mais tarde, ela se orgulhou de um artigo
Muito bem escrito por ele.
E ele descobriu que,
n’um passado remoto
ela havia sido excelente aluna de matemática, geometria e afins.

Foi então que ambos descobriram:
tinham mais em comum do que o contrário
E as diferenças?
Um aprendizado constante.
Um tempero.


O beijo?
O melhor de toda uma vida.
Para ambos.
A pele?
A mais cheirosa. A mais macia.
Um verdadeiro encaixe.

E da paixão, fez-se o amor.
Aquele em que se acredita só existir nos livros.
Nos folhetins.
Com uma dose forte de realidade,
é verdade.
Mas aquele...
Você sabe
No fundo, no fundo
Todos querem e/ou esperam...

...

Com sabor de fruta mordida.
Clichê.
Brega.
Cafoníssimo.
Mas...
absurdamente...
delicioso.

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